Páginas

sábado, janeiro 06, 2018

Ainda a mesmice...

Nada mudou, ainda!



Há pouco mais de 70 anos, findou-se a Segunda Grande Guerra. E o alívio mundial ante o término do conflito foi o descortinar dos palcos para novos cenários – visuais, perceptíveis e surpreendentes. Era preciso reconstruir muitas e muitas cidades nas duas metades em que se dividiu a humanidade na estupidez das batalhas por terra, mar e ar, com as partes bélicas demonstrando sempre novidades terríveis, desde os teleguiados V2, alemães, até as bombas sobre Hiroshima e Nagasaki.

Em Caldas Novas, onde os conflitos não iam além dos fuxicos políticos e as fofocas de vizinhos, permeados com possíveis desentendimentos conjugais (num tempo em que sequer se imaginava o divórcio tupiniquim), aquele ano de 1945 foi marcado por muitos nascimentos. Dentre eles, eu mesmo.

Essas pessoas que por aí povoam de cabelos brancos, cabelos tingidos ou mesmo sem cabelos são, comigo junto, parte grande das testemunhas das transformações comportamentais, sociais e tecnológicas, ou seja, somos de um tempo em que a humanidade experimentou surpreendentes mudanças.

E como se transformou a humanidade! Falava-se, no decorrer da década de 1950, em “cérebro eletrônico” e o cinema, que se fartou de mostrar cenas daquela guerra, exibia uma imensa mochila de metal, quase sempre nas costas de um cabo de infantaria. Era o “rádio de comando”, uma vedete das modernidades. Jamais imaginaríamos que o primeiro “cérebro eletrônico”, que contam ser tão grande que ocupava um edifício de cinco andares, juntamente com o tal “rádio de comando” viriam a se misturar num minúsculo aparelhinho que carregamos no bolso – o telefone móvel, ou celular, que sucedeu ao prosaico telefone (de gancho e disco) e ao antes surpreendente PC, o computador pessoal.

A sociedade se transformou também nos costumes, e muito mais rapidamente do que em qualquer outro meio século em toda a sua existência. Quem diria que vovós octogenárias, como as de agora, poderiam contar de suas danças da acima citada década de 1950, quando o rock and roll caracterizou uma mocidade? E essas vovós, ao apreciar a liberdade das netinhas (ou bisnetas) ao anunciar “hoje vou dormir na casa do meu namorado” acolhem com ternura a decisão destes tempos.

Imenso passo, esse! Lamentavelmente, o homem mudou também para pior. Um deputado como aquele dançante que liderava a defesa de Eduardo Cunha – e que derramou para o mesmo posto em relação ao presidente Temer, descoberto em tramoias com empresários sem escrúpulos – acaba premiado com um cargo de ministro.

Mulheres também mudaram. A recém nomeada ministra do Trabalho foi, há bem pouco tempo, condenada em ação na esfera da Justiça do Trabalho. E seu suplente é um “político” que foi condenado por prática de pedofilia e exploração sexual de menores – mas foi agraciado com um habeas corpus providencial. Ou seja, também a Justiça mudou muito (e, em alguns informes, para pior).

Pelo visto, ser “do mal” é capacitação para o ministério de Temer. Lá já estavam aqueles dois denunciados ao lado dele, o presidente; por lá já passou o Geddel, e de lá saiu o antecessor da filha de Roberto Jefferson – aquele mesmo que publicou uma portaria modificando o conceito de trabalho escravo (uma decisão que agradou fortemente a “classe produtora” do campo, inclusive o ministro da Agricultura). E o governo fez vistas grossas ao que o Judiciário decidiu sobre a tal portaria, que só foi revogada após a saída de seu autor.

Enquanto o mal se espalha na cúpula dos palácios de três poderes, o rádio informa que morreu no Rio de Janeiro o jornalista Carlos Heitor Conny, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras, homem perseguido pela ditadura, indiscutivelmente um crítico severo das mazelas cometidas pelos políticos, tal como, com heroísmo e forte convicção, criticou o AI-2 – o que motivou a primeira das seis prisões que sofreu durante o regime do arbítrio.

Muitas razões de tristeza nesta primeira semana do ano!

******

Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras

domingo, dezembro 31, 2017

A Caixego, Alencar e Marconi





Alencar com Marconi, o vice José Éliton e o deputado Giusepe Vecci.

Heróis de nobre causa


Os fogos do Ano-Novo, desde o extremo oriente, passam por este aprazível Planalto Central Brasileiro e continuam até o Meridiano Internacional de Datas. São sons ariáveis e luzes cintilantes de todo o arco-íris, sinais de fomento à autoestima e da fé no próximo. Ah, que bom se fossem repetidos algumas vezes nos próximos meses!

Neste Planalto de Goiás e adjacências, berço das águas e de uma diversidade biológica das mais ricas, onde se ergueu e se manteve por milênios o Cerrado, plantou-se Brasília para a Integração Nacional. Mas com as benesses vieram os vícios. A moralidade proposta pelo regime de exceção, mantido por militares patriotas e que agraciou uma nata civil inimiga da sofrida Nação Brasileira... essa moralidade esvaiu-se no ralo da longevidade do regime, contaminou-se das facilidades das grandes empreiteiras para desaguar, três décadas após o retorno dos civis ao poder, no mar de indecências que marca fortemente as retrospectivas de 2017.

Lamento muito a omissão sobre os feitos de boa qualidade. A ciência biológica, a medicina e a tecnologia eletrônica, as inovações nas práticas e a engenharia, as realizações artísticas e um sem-número de grandes feitos permanecem no silêncio do anonimato. É triste!

Em Goiás, ficamos distantes, em boa dose, das mazelas que maculam a vida nacional em grandes centros, como o Rio de Janeiro, o Rio Grande do Sul, Minas Geral e outras unidades da Federação (nem o novo estado apelidado, ainda, de Distrito Federal, escapa). Não escapamos da crise, vivemos a escassez de contingentes nas polícias, não conseguimos – sem a participação da União e dos Estados igualmente envolvidos – combater o tráfico.

A longa lista de malfeitos deste ano remete-me ao dia 20 de setembro de 1990, quando a insanidade na cúpula brasiliense ordenou o fechamento abrupto e estúpido da Caixa Econômica do Estado de Goiás, a Caixego. Mais de três mil servidores foram lançados no campo estéril do desemprego, e vários eram os casais (e mesmo casos de pais e filhos) que, sem o direito sequer de sacar seus salários – era dia de pagamento – viram-se desnudos de sua dignidade individual, de seu ganha-pão, do respeito que se angaria na sociedade quando se exerce com lisura e afinco sua obrigação profissional.

Como uma ilha entre os feitos desagradáveis, destaco eu um feito e uma figura: o resgate do respeito e da dignidade de quase dois mil trabalhadores, vítimas daquela falseta “collorida” praticada a pedido não se sabe ao certo de quem – só se sabe que o propósito era agredir o governador Henrique Santillo, cujo grande erro era a sua autonomia, já que não se curvou ante o rigor da ditadura e certamente não aceitava cabrestos políticos.


Alencar, o guerreiro.
O feito, pois, foi esse resgate, a anistia e a recondução de uns 1.800 funcionários ao Estado, suprindo vagas abertas com aposentadorias e demissões em várias áreas da administração – e, é indispensável o destaque, oferecendo trabalho de elevada qualidade!


Agora, a figura: Antônio Alencar Filho, o popular “Alencar da Caixego”. Ele foi diretor administrativo e de RH, eleito pelos colegas e nomeado por Santillo. Insatisfeito com o fechamento do banco e mais ainda com a pecha que se atribuiu, negativa, à massa trabalhadora da Casa, empenhou-se fortemente, nestes 27 anos, por resgatar a citada dignidade de seus pares e sua volta ao meio operacional.

Nesse propósito, e após dois períodos de indiferença dos maiores mandatários por oito anos, Alencar encontrou eco no perfil político-administrativo do governador Marconi Perillo. O resultado, citei-o nas linhas acima. E o efeito, neste momento, é o realce que vejo e reconheço na luta incansável desse guerreiro do bem, o colega Alencar.



Marconi Perillo entre os funcionários resgatados da Caixego. Mão de obra qualificada na gestão pública de Goiás.
A ele e ao governador Marconi, o meu preito de reconhecimento. Acredito que a vida se marca de grandes atos, não apenas de longas estradas e gigantescas usinas. Hoje, são mais de três mil famílias beneficiadas ante a justa aceitação pública de seus entes maculados negativamente naquele 20 de setembro, há 27 anos. Destes, o Estado aproveita a experiência e a competência de 1.800.

E a História os terá, Marconi e Alencar, como heróis de uma causa elevada.

******



Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

sábado, dezembro 23, 2017

De Sônia Elizabeth sobre O Folclore do Vinho



Folclore do Vinho

A poetisa Sônia Elizabeth é mais que uma escritora - é apaixonada por textos, sejam curtos como bilhetes, alongados como cartas e crônicas, ricos como contos e romances ou encantadores como poemas. Mas não dispensa, também, livros vários, como os que enfeitam-nos a alma de informações amoráveis, e sobre eles tece comentários sensíveis e pertinentes. Vejamos:

Sônia Elizabeth, poetisa e mais que enóloga.



Sou uma apaixonada por vinhos e, de consequência, o gosto em ler e estudar tudo que se refere a eles. O que mais aprecio na bebida é a rusticidade que contém, a inebriante alma que destila, a lembrança dos parreirais, a beleza das uvas e tudo que envolve o cultivar, a colheita (principalmente dos colonos e suas famílias), produção e o prazer de beber, degustar, sentir. O jeito clássico e rude que possui. Prezo muito mais a garrafa de vinho depois de aberta, com a rolha, do que antes, com o rótulo formal; daí então minha alegria em ter sido contemplada com o empréstimo, das mãos do poeta e jornalista Luiz De Aquino Alves Neto, do livro O FOLCLORE DO VINHO, de Whitaker Penteado, Edição do Centro do Livro Brasileiro, Lisboa - Porto, ano de 1980. Sim, a obra propõe, e é feliz nisso, mostrar o vinho em seu lado rústico, folclórico, popular, com provérbios, modinhas, glosas, historietas e tudo que afirma e reafirma o líquido de Baco como verdadeiramente artesanal e livre de artimanhas apenas rituais.

Diz-nos o autor: " Para mim, a sedução maior e mais autêntica do vinho está no seu folclore. Impossível ignorá-lo, na Europa. O vinho está onipresente nas festas populares, nos provérbios, no cancioneiro, nas lendas e superstições, em todos os momentos da vida. O vinho não faz parte da vida: é afirmação de vida, sua expressão mais ostensiva, é a vida de cada um".

Vejamos alguns provérbios brasileiros colecionados por Lamenza, e citados no livro aqui comentado:

“A par do rio, nem vinha, nem olival, nem edifício.
Azeite, vinho e amigo, prefere o mais antigo.
Com pão e vinho, anda-se caminho.
O bom vinho faz bom sangue”.

Agora, provérbios do Piemonte:

“Bela vinha, pouca uva”.
“A pipa dá o vinho que tem”.

Espanha:

“Abade que foi fradinho, bem sabe quem bebe o vinho”.
“Casa em que vivas, vinho o que bebas, terra, quanto vejas”.

Um provérbio japonês sobre o vinho:

“Com o primeiro copo, o homem absorve o vinho, com o segundo o vinho absorve o vinho, e com o terceiro o vinho absorve o homem”.

Citando versos do poeta Gregório de Matos, o que ridicularizava a fidalguia, ajuda-nos na compreensão do significado do vinho bebido em Pernambuco:

"Há cousa como ver um paiaiá
Mui prezado de ser caramuru,
Descendente de sangue de tatu,
Cujo torpe idioma é copebá!

A linha feminina é cariná,
Moqueca, petininga, carimu,
Mingau de puba, vinho de caju
Pisado num pilão de Pirajá..."

Cita uma versão do Auto do Cego do Ceará, e aí emociono-me ao lembrar de minha mãe que cantava tão bem esse auto. Também a Nau Catarineta, auto popular de origem espanhola, reproduzindo a versão sergipana de Sílvio Romero.

A bela cantiga de roda onde sobressaem os versos "Vem cá, Bitu! Vem cá Bitu!/

Vem cá, vem cá, vem cá... Mestre Cascudo diz que "Bitu foi um dos mais fanáticos discípulos de Baco, na história do Rio de Janeiro, em princípios do século passado".

Memorável citação da goiana folclorista Regina Lacerda dizendo que se não fosse por ela "o vinho passaria, em branca nuvem, pelas cantigas de roda brasileiras”.

Ela descobriu em Goiás uma raridade, aquele pezzo único dos italianos apaixonados colecionadores, uma cantiga de roda sobre o vinho:

"Menina, toma esta uva,
Da uva se faz o vinho;
Teus braços serão gaiolas,
Eu serei teu canarinho."

E o brinde de mesa húngaro, assim, belamente assim:

"A terra, senhores, é trabalho duro, 
E quem a cultiva
a irriga com o suor do rosto.
Não vos esqueceis, jamais,
quando beberdes o bom vinho,
que o primeiro brinde seja
à saúde de quem plantou a vinha!".

Também nos ensina: " Os Ingleses, desde Shakespeare, cultivam uma forma literária um tanto estranha, os brindes de mesa. É comum, em Londres, fazer a saúde com citações literárias, onde grandes poetas e escritores são evocados ao lado de poetas anônimos populares".

E, finalizando, vamos de Manuel Maria Barbosa du Bocage, com essa poesia satírica:

"A cada canto um grande conselheiro
que nos quer governar, cabana e vinha.
Não sabem governar sua cozinha
e querem governar o mundo inteiro!

Em cada porta um bem frequente olheiro
da vida do vizinho e da vizinha,
pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha
para o levar à Praça ou ao Terreiro.

Muitos mulatos desavergonhados
trazendo pelos pés aos homens nobres;
postas na palma toda a picardia.

Estupendas usaras nos mercados:
Todos os que não furtam, muito pobres:
Eis aqui a cidade da Baía!”.


É Natal, e a maioria bebe vinho. Inebriemo-nos todos, com parcimônia, pois!

Sônia Elizabeth

* * * * * * * * *

Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.


domingo, dezembro 17, 2017

Rodovia terceirizada



Rodovia terceirizada



Sempre fui apaixonado por estradas. Na infância, lá em Caldas Novas, víamos na linha do horizonte os raros automóveis ou caminhões, bem como o ônibus que só passava uma vez ao dia, chegando à frente de uma nuvem de pó avermelhado. Em algumas ocasiões, ouvíamos o ronco distante do motor.

Aquilo, para mim, era mágico. Pessoas chegavam de longe, de outras cidades, valendo-se da magia tecnológica dos automóveis. Também as tropas e as boiadas que, às vezes, passavam pelas minhas lembranças – da cidade e da infância – deixavam-me em êxtase. E a tudo isso acrescento as noites calmas de conversas com viajantes comerciais – ou “cometas” – significativos portadores de novidades, pois que vinham dos grandes centros e informavam-nos de coisas que os jornais (que chegavam sempre com três ou quatro dias de atraso) nem sempre contavam.

Como dizia, gosto muito de estradas. E vem da infância, também, a paixão por mapas e – se o leitor bem percebeu – eu gostava de notícias e novidades. Penso que não mudei muito nestes sessenta e tantos anos da memória (aos 72 de idade, tenho lembranças nítidas dos meus quatro anos e algumas um tanto nubladas de tempos anteriores).

Ultimamente, ao mudar-me para Hidrolândia, sou usuário continuado, no dia-a-dia, da BR-153, nestes cerca de 30 km ao sul de Goiânia, além de outros trajetos que percorro eventualmente. Com isso, valho-me do que mais parece uma avenida, tão intenso é o trânsito, com pista razoável, mas, tenho de admitir, distante alguns anos-luz do que se tem em São Paulo – exemplo maior, no Brasil, de boas rodovias

A empresa concessionária é ótima no que se refere a manter as margens leste e oeste da rodovia, bem como seu canteiro central, limpos para a visão. Contudo, desleixa-se na manutenção do perfil asfáltico (nos últimos dias, na proximidade de um grande distribuidor de medicamentos, entre Aparecida de Goiânia e Hidrolândia, “nasceu” um buraco que mais parece uma panela de pensão, com profundidade superior a dez centímetros – sem dúvida, um risco para quem cair nele). Em vários pontos, o trecho iluminado que se estende por todo o perímetro urbano de Goiânia e de Aparecida ostenta partes apagadas há um respeitável período (alguns meses) sem qualquer iniciativa da mantenedora, a Triunfo Concebra. E o DNIT, parece não fiscaliza.

O mesmo se dá quanto às placas. Ao término do perímetro urbano, nas proximidades daquele imenso posto de serviços e estadia de caminhões, o motorista que segue para o Sul vislumbrava uma placa das grandes indicando a velocidade máxima (110 km/h para veículos de passeio e 90 km/h para ônibus e caminhões). Pois bem, essa placa sumiu e não se deu a substituição. A última recomendação de velocidade é no trevo de retorno, perto do centro de Aparecida, indicando a redução para 40 km por hora. Cito apenas um exemplo, mas é bom dizer também que em nenhum ponto por mim conhecido na BR-153, sob responsabilidade da Triunfo, existe algo a lembrar que é preciso acender o farol baixo – recomendação comum nas rodovias estaduais de Goiás.

O que mais complica, porém, é que a empresa concessionária e o órgão público, afetos às nossas rodovias, não ligam. O usuário que se dane!


******


Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

domingo, dezembro 10, 2017

Os 80 anos do Liceu em Goiânia

Liceu: há 80 anos em Goiânia


A História há de ser sempre recontada, ou cairá no limbo da desmemória. Com ligeiros cortes e retoques, trago de volta um fato importante na vida social e cultural de Goiânia – a vinda do Liceu de Goiás para a nova capital, em 1937. E volto ao tempo ainda mais, 100 anos antes, ainda...

O Brasil era um país de homens rudes, afeitos às lides do campo, fosse a criação de gado para o leite e a carne, fossem as lavouras de alimento e vestuário. As letras e as ciências eram ocupações da nata citadina. Surgia, naqueles anos da Regência, a preocupação dos governos, tanto na Corte quanto nas províncias, de se dotar o país de escolas. Ou de Liceus, como era a moda na Europa que nos servia de exemplo.

Em 1837, o Ministro do Império Bernardo Pereira de Vasconcelos apresentou ao Regente Pedro de Araújo Lima uma proposta para a organização do primeiro colégio secundário oficial do Brasil. Nove anos depois, a província de Goiás criaria o seu Liceu, por iniciativa do presidente Joaquim Inácio de Ramalho. E em 1904 o Liceu de Goiás começou um processo de equiparação ao Ginásio Nacional (Colégio Pedro II).

Com a mudança da capital, o Liceu ficaria na Cidade de Goiás. Pelo menos, fora essa a promessa de Pedro Ludovico Teixeira, interventor federal e fundador de Goiânia, aos vila-boenses. Mas, na prática, a permanência ficou inviável: os estudantes, em sua grande maioria, eram filhos de funcionários estaduais, transferidos para a nova cidade. O colégio precisava, pois, ser também transferido. Mas o Estado não teria condições financeiras, nem recursos humanos à altura, para manter dois colégios, um na Cidade de Goiás, outro em Goiânia.

E este solene sobrado da Rua 21, tombado pelo Patrimônio Histórico, é o que festejamos hoje. Inaugurado no dia 27 de novembro de 1937, sob a direção do professor Iron Rocha Lima, ele abrigou, também, o Grupo Escolar Modelo, do qual o artista José Amaury Menezes foi aluno neste prédio.

O velho Liceu, que na cidade de Goiás foi escola para Pedro Ludovico e seu filho Mauro Borges Teixeira, servira também de formador de centenas de outros goianos ilustres nas mais variadas profissões. Por ele, na antiga capital, passaram escritores do quilate de Bernardo Élis e de José J. Veiga, além de juristas, médicos, arquitetos e engenheiros, artistas de pincel e partitura.

Em Goiânia, onde se instalou em 29 de novembro de 1937, o Liceu não só continuaria sua vida de glórias, mas seria consolidado como um dos mais importantes estabelecimentos na história da educação pública do País. E enquanto nos formava para as letras e as ciências, éramos também forjados na luta de consciência social.

Ainda é tempo! Resgatemos a História do Liceu de Goiás. Hoje, com o fechamento de todos os demais liceus e colégios criados antes de 1846, à exceção do Colégio Pedro II, somos o segundo mais antigo dentre todos os educandários do Brasil.

O Liceu já viveu muitos momentos de crise, mas sempre sobreviveu. Sua águia, às vezes, é uma fênix. E a nós, que absorvemos deste Liceu centenário os ensinamentos científicos, artísticos, culturais e morais, havemos de fortalecê-la para resistir às chamas.

Por isso, eu vim aqui para falar de amor. É que falar de amor é uma das poucas coisas que faço bem. Sou muito amor. Sou amor ao próximo e a todos os que contribuíram para que eu, hoje, fosse feliz. E o Liceu me ensinou boa parte deste caminho.


*****


Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras.


sábado, dezembro 02, 2017

Dois livros de Miguel Jorge

"Natal de Poemas e "Os frutos do rio" - obras de Miguel Jorge


Do que (de fato) vale a pena



Ando cansado desses que têm aspecto de gente, vestem-se como gente tradicional, falam como se acreditassem nos princípios saudáveis das relações respeitosas entre os humanos, com os quais tanto se parecem. Ando cansado desses que se dizem políticos – pessoas que, por conceito, deveriam se ocupar de bem-servir ao “polis”, à massa humana que, por lei, deveriam representar. Sim: esse tipo de político já me cansou!

Não quero mesmo falar neles, não!

Escolhi não mais ouvir notícias – os locutores, repórteres, âncoras e entrevistados de tevê e de rádio são não apenas despreparados (os profissionais) e cínicos (os políticos), já que parecem convencidos de que nos iludem, nos enganam e nos convencem de que estão passando informações sérias e irrefutáveis. Até que uma nova operação policial-judiciária resulte em mandados de prisão e condução coercitiva de tantos famosos.

Condução coercitiva é o termo novo para “buscar debaixo de varas” ou, de modo mais sintético, “aos costumes”.

Pois os meus costumes, que são vários, resultam em abraços e sorrisos felizes quando me isolo do noticiário e vou ao convívio dos meus pares. E por pares entendo-os muito além das fichas de filiação neste ou naquele clube ou sodalício, identifico-os pelos gostos muito especial pelas artes em figuras de duas ou três dimensões, em sons de músicas e canções, em letras de poesia e prosa.

Miguel Jorge, escritor de prosa e verso.

Imagine-se, pois, o momento em que pessoas de várias artes se encontram, motivados pelo chamado de algum, como se deu na noite da sexta-feira, o primeiro dia deste dezembro de 17, quando Miguel Jorge se dispõe a autografar seus poemas natalinos ajuntados num livro rico não só dos versos admiráveis, como também da impecável arte de Amaury Menezes que ilustra o novo Natal de poemas. Aproveitei a ocasião para adquirir também o livro anterior, Os frutos do rio, em que o poeta Miguel juntou seu poemário sobre o nosso amado Araguaia.

Em pouco tempo, juntavam-se poetas, pesquisadores, contistas, atores, artistas plásticos, músicos (maestros, instrumentistas e cantores) em indisfarçável congraçamento em torno do grande autor de tantas obras também em prosa, teatro e romance, além de seus incomparáveis contos. Com a casa cheia, e após abraçar todos os que ali estavam, Mary Anne e eu despedimo-nos-dispostos a tomar a estrada rumo a este meu Canto de amar – também chamado de Boteco do poeta – em terras de Hidrolândia. Mas à minha saída contrapunha-se, para a minha alegria, o poeta Ubirajara Galli e Lena, sua par-perfeita.

Abraços de “oi, boa noite, até mais, já vamos” etc. E a notícia: o bom e velho Bira anuncia-me que, em breves dias, trará a público a republicação de seus sete livros de poemas. E que haverá de juntar os amigos desta longa jornada a que chamamos ainda de “estrada da vida” – pois que são, agora, 40 anos de vida livresca!

“Não quero discursos, nada de formalismos, não vou sequer autografar – quero mesmo é que os amigos constituídos nestas quatro décadas estejam lá comigo, quero conversar, recordar, dar vazão às lembranças e às saudades, só isso” – esclareceu o poeta. E recitamos, ele e eu, muitos nomes destes 40 anos, absolutamente certos de que não recordamos sequer um décimo de tantos amados nossos, dos quais alguns de foram sem dar “té-logo”.

Sem nada dizer, comunguei o ideal de Ubirajara Galli. Fomos, ambos, associados a União Brasileira de Escritores pelo autor da noite, Miguel Jorge. Muitos dos que testemunharam nossa jornada de quarent’anos estavam ali, bem perto, e de alguns sorvemos solene aprendizado.

Não quero contar os nomes, eu não poderia esquecer nenhum e não me atrevo. Então, e antes do primeiro passo rumo à saída, olhei para o ícone das nossas artes, o paisagista Amaury. E senti vontade de dizer ao Bira que, nesta caminhada quase que de mãos dadas, fomos muito felizes.

E, como bom goiano, apenas acenei com quem dissesse “Quá! Num é preciso falar nada”.


******



Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

sábado, novembro 25, 2017

Aviltamento

Depois dos fatos nocivos e a cena acima (foto: Polícia Federal), não vejo como preservar o respeito a Temer na presidência.


Aviltamento



Primeiro ato: Houve um tempo em que comunismo era uma palavra tão perigosa, tão apavorante e temida que era o bastante para fazer as crianças dormirem mais cedo, os ricos tremerem de medo e os católicos parecerem mais fiéis (maridos também). Era o tempo da comunicação incipiente, a notícia de um evento no Leste Europeu ou na Ásia levava semanas para chegar aqui (quando chegava) e o fato passava por tradutores meticulosos e ainda pelas censuras dos políticos e dos militares.

Hoje, fala-se muito em manipulação das notícias e a culpa é do sistema Globo, como se não houvesse concorrentes. Era o tempo das madames empoadas desfilando em “família com Deus pela liberdade”. Para aquelas pessoas, liberdade era o direito que elas, somente, tinham de produzir, faturar e viajar, importar sem ônus, pagar baixos salários e assegurar para si e seus descendentes o melhor da vida brasileira.

O comunismo acabou, como regime, mas sobre-existe como filosofia, não passa de um conceito abstrato e de uma utopia sabidamente imprópria, mas as carências sociais continuam. Há pessoas que se preocupam, seriamente – sem vinculação ideológico-financeira – e que insistem em buscar soluções que minorem as dores da expressiva parcela de brasileiros miseráveis.

Segundo ato: Ao longo da vida política brasileira, sempre se falou em corrupção. Os portugueses colonizadores vigiavam seus mandatários na colônia, vigiando-os de perto. Muitos caíram em desgraça por, efetivamente, apropriarem-se de parcelas “clandestinas” dos minerais explorados em Minas e Goiás. A vinda da Família Real (com toda a corte) em 1808 mudou a vida brasileira, que logo passou a Reino Unido e, na sequência, fez-se independente. O império foi marcado pelas inevitáveis mudanças, veio a renúncia de Pedro I, os nove anos de regências e, por fim, a emancipação precoce de Pedro de Alcântara, aos 14 anos, que governou por 49 anos e a nação conheceu muito da luz inovadora do Século XIX. Já se tinha planejado e pronto para se aplicar o III Império quando se fez esta malfadada república, inaugurada com um golpe em que até o dito autor – Deodoro da Fonseca – não sabia de nada.

Terceiro ato: Naquele 15 de novembro, em 1889, nasceram todos os males que nos afligem hoje. Deodoro, feito líder, foi escolhido presidente da República, tendo por vice o mentor daquela coisa. Num lampejo de consciência, talvez, Deodoro renuncia dois anos após e restaria ao segundo marechal o mandato tampão – porém, Floriano impôs, “no grito”, que ficaria quatro anos, pois “fora eleito para quatro anos” – e a cúpula corrupta ou medrosa da república aceitou. A alma brasileira comete, talvez inconscientemente, uma breve vingança ao apelidar Florianópolis de “Floripa”. O marechal, no dizer dos mais antigos, “certamente se remexe no túmulo” cada vez que assim se fala.

Foram tantos e tão variáveis os desmandos da República Velha que o Brasil, “desaguou” na revolução de 1930, liderada por Getúlio Vargas, que ocupou a cadeira da presidência por quinze anos, foi deposto, voltou pelo voto e morreu, dizem que de suicídio, com uma carta-testamento que (dizem) estava escrita por algum assessor desde uns dias antes do fatídico 24 de outubro de 1954.

E aí vieram a tentativa de golpe em novembro de 1955; outra em agosto de 1961 e, por fim, vitorioso, em 1964, quando se definiu que “as elites civis estão falidas”. Foram 21 anos de ditadura por revezamento, a distensão ou abertura, a passagem do poder aos civis, um vice improvisado como titular, um inconsequente eleito pela massa, o impeachment, outro vice que aplicou com eficiência um plano que acabou com a inflação, um eleito com pose de príncipe, outro com as marcas do povão, uma mulher que engrandeceu a ala feminina, mas que caiu por prepotência, num golpe armado sob definições ditas legais.

A falseta ficou clara quando, num arroubo de bondade, o presidente do Senado propôs e o presidente do Supremo Tribunal aplicaram uma atravessada na lei, afastando a presidente sob apenas meia punição, já que o impedimento implicava suspensão dos direitos políticos.

Até uns meses após a investidura estranha – mas calçadas em preceitos legais – do vice escolhido por Dilma cuidei, sempre, de preservar o respeito à pessoa que ocupava o posto de Getúlio e Juscelino, mas Temer não se faz por merecer. Além das suspeitas das conspirações tão decantadas antes, vieram as denúncias que ele não consegue refutar senão perante a Câmara em que dezenas de deputados são investigados, o Senado com membros já em vias de serem condenados e que se mantêm fiéis ao presidente sob as propinas que já não mais se escondem, tudo custeado pelo povo, sem chance de alívio enquanto perdurar essa coisa.

Francamente, é difícil manter o respeito.

*****


Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.