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sexta-feira, outubro 02, 2015

Educação: prefiro as OS

Este artigo está publicado também no Diário da Manhã (Goiânia) de hoje: http://digital.dm.com.br/#!/view?e=20151002&p=23


Educação: prefiro as OS


Nós, goianos, adoramos forasteiros, falas exóticas e posturas que parecem novas. E, hospitaleiros, abrimos nossas portas e os admitimos em nossas salas e varandas, oferecemos nossas quitandas e nossos assados, as iguarias das nossas avós e... Quando despertamos (já ia escrever “damos por fé”), lá se foi nosso almoço, nosso lanche e nosso jantar! Perdemos o que nos identificava.

O problema é que aceitamos tudo passivamente. Eu vi a minha cidade natal, Caldas Novas, escapar das nossas mãos para o controle definitivo dos forasteiros, que pisotearam as nossas memórias, a ponto de tentarem até mesmo demolir a Igreja de Nossa Senhora das Dores, o edifício em torno do qual, em 1850, surgiu o povoado original.

O mesmo se dá na Educação. Cansam-nos as notícias de descasos, como problemas com a merenda escolar, óbices “insuperáveis” na questão do transporte escolar, professores desmotivados, alunos violentos e sem perspectivas – enfim, esse caos que nos chega pelos noticiários de todos os dias.

A saída, a meu ver, é a terceirização da gestão também no Ensino, prática que, testada na Saúde, mostra resultados excelentes. Mas o gosto pelo “que vem de fora” já nos contamina a ponto de a secretária da Educação entender assim: “O trabalho do Afroreggae é uma tecnologia social desenvolvida ao longo dos últimos 22 anos, para resgatar jovens das drogas. Só eles conseguem transformar traficantes, não apenas dependentes. Não teriam reconhecimento internacional como têm, se fosse só mídia. Tenho vídeos impressionantes do trabalho deles. E não vai nos custar nem um tostão”, Isso, a uma pergunta minha se somente “os de fora” podem atuar em projetos de tal natureza.

Estranhei muito a frase “Só eles conseguem transformar traficantes, não apenas dependentes”. Imaginei que a grande imprensa está equivocada ao noticiar o aumento do poder dos traficantes no Rio de Janeiro, as balas perdidas, os inocentes mortos, o ataque rotineiro a quartéis da Polícia.

Gostar “dos de fora” parece ser algo de forte na personalidade da secretária da Educação, da Cultura e do Esporte em Goiás. Há poucos dias, ela estava em São Paulo para dialogar com o ex-prefeito de Anápolis, Ernani de Paula. Vozes dos corredores da Educação diziam que ela “entregaria” a Educação goiana ao ex-prefeito cassado por... Ah! Foi há uns dez anos, informem-se!

Outra ação que nos indigna é menosprezar os inúmeros e bons professores preparados do Estado, o Conselho Estadual de Educação e mesmo as Academias de Letras, que somariam valores neste projeto. Respeito a Fundação Getúlio Vargas, mas se há um projeto nascendo em Goiás, que seja discutido e planejado aqui.

Estranha-me, também, termos na linha de frente na elaboração dos critérios do chamamento público (inclusive sendo o responsável para o aceite das Organizações Sociais) um “ex-dono de escola particular em Goiânia” – no caso, o Superintendente Executivo Marcos das Neves, conhecido como Tucano. Não lhe desmereço a capacidade, apenas questiono a sua participação.

Em todas as entrevistas que ouço, os próprios radialistas afirmam que Raquel Teixeira é contra a implantação desse novo modelo. Recentemente, em discurso na Universidade Federal de Goiás, ela deixou claro o seu posicionamento. Disse textualmente: “Aceitei ser secretária de um governador que quer experimentar OS; ou eu faço um piloto e dou alguma resposta para o governador, ou peço as contas e vou embora”. E disse ainda que seu marido a chamou de “bucha-de-canhão, pois apanha do governador e apanha dos professores, estando em uma situação muito vulnerável, considerando-se fraca frente a Thiago Peixoto tipo por ela como um homem forte do governo”.

Na verdade, todos sabemos que Raquel Teixeira tem pensamento contrário às ações empreendidas por Thiago Peixoto quando Secretário de Educação. O atual Secretário de Planejamento implementou o Pacto pela Educação e mostrou resultados positivos. E a atual secretária, com nove meses no cargo, ainda não disse a que veio.

O que se pode esperar é uma queda abrupta no próximo Ideb – e não faltarão desculpas. Resta-nos um futuro ainda incerto quanto ao que o governador tem propagado aos quatro cantos, que é a implantação das OS na Educação. Isto, mais do que nos preocupar, demonstra um desencontro de ideias e, o que é mais sério, uma ausência de compromisso com o que o governador Marconi Perillo determinou.

Considero um erro a Secretaria de Cultura agregada à da Educação. Se antes nos faltava o horizonte, hoje ele sequer existe! A ida do Prof. Nasr Chaul para a Superintendência Cultural trouxe-nos um certo alento, mas a dependência e os entraves burocráticos a que ele está sujeito, somados aos diversos problemas existentes, não permitirão que ele repita a gestão promissora que teve à frente da Agência Pedro Ludovico Teixeira, a extinta Agepel.

Todos sabem do meu afeto e respeito para com o governador Marconi Perillo, a quem acompanho desde sua primeira eleição para deputado estadual, mas a cada ano inúmeros companheiros de primeira hora, formadores de opinião, têm sido preteridos e esquecidos. Lamentavelmente, enquadro-me entre estes.

Optar pelas Organizações Sociais na Educação é um caminho sério. Apesar da seriedade e competência do Secretário Extraordinário Dr. Antônio Faleiros à frente da organização deste chamamento, sinto-o sem o amparo de uma equipe similar à que teve quando titular da Saúde. O que se tem em evidência são as constantes contradições de Raquel Teixeira, que até o momento não mostrou qualquer fato novo – aliás, e com sinceridade: ela parece querer ir na contramão do que determina o governador.

Já iniciamos o mês de outubro, o que significa redução do tempo para o chamamento público, o aceite das Organizações Sociais, a assinatura do contrato de gestão e as burocracias deste caminho. O próximo ano letivo está próximo. Até agora, muito discurso e pouca ação.



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Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras.

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