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sábado, agosto 19, 2017

Espaço José J. Veiga, há 10 anos no SESC




No SESC, há 10 anos...


Foram quase oito anos de andanças e pedidos, de portas-na-cara e más-vontades de todas as nuanças. Eu cuidava, desde os primeiros dias após seu desenlace, de instalar com dignidade e boa evidência os livros e objetos que constituem o acervo literário do amigo e autor exemplar José Veiga (para o mundo, há um jota-ponto no meio), como era de sua vontade.

José J. Veira, na pena talentosa de Almir
Ao lado, a amiga Dênia Diniz de Freitas, bibliotecária, incansável e competente, minha orientadora em todo o processo. Foi ela quem, coadjuvada pela filha Marina (então com 12 anos), inventariou todo o material que simplificamos ao chamar de “o acervo”. Do governador Marconi Perillo, naquele marcante 1999, ouvi o compromisso simplificado “Conte comigo”. E Nasr Chaul, presidente da antiga Fundação (que se tornou Agência) Cultural Pedro Ludovico, fez a sua vez. Trouxemos do Rio de Janeiro a “encomenda” e a instalamos numa sala da Casa de Cultura Altamiro de Moura Pacheco, da Academia Goiana de Letras, com o apoio do presidente da época, o confrade José Fernandes.


Dona Clérida, a companheira de meio século!

Viagens e mais viagens, visitas e consultas, audiências e conversas informais... uma canseira! E um receio incômodo de “morrer com o mico”, como no antigo jogo infantil. Até que, num flash, naquele abril de 2007, ao deixar o Lucas (então com quase 12 anos) no Colégio SESC Cidadania, eu disse à Mary Anne: “Já sei onde instalar o acervo do Veiga”. E apontei a belíssima estrutura arquitetônica que, mais que isso, era aquela escola que homenageia o saudoso Elias Bufáiçal.

Chegando à casa, liguei para o número de José Evaristo, presidente da Fecomércio goiana. Atendeu-me sua alma-gêmea, a poetisa admirável e amiga especial Sônia Maria Santos. Falei-lhe de minha ideia e já ganhei seu apoio. Liguei para o marido, que já saíra para o trabalho. “Luiz, não sou eu quem lhe dará a resposta, mas você a terá em 15 minutos”. Foram apenas quatro minutos, e ligou-me o Diretor Geral do SESC em Goiás, o também amigo Giuglio Cysneiros:


José Evaristo, a poeta Sônia Santos e Giuglio Cysneiros.
– É verdade que você quer nos dar um presente?

No dia seguinte, reunimo-nos, Giuglio e eu, na Casa Altamiro, da AGL. Ele se fazia acompanhar da equipe de bibliotecários. Avaliaram o que viam, anteciparam sua anuência em receber o presente, e assim se fez. Em pouco mais de 24 horas, a solução começava a ganhar forma.


Bibliotecárias Ana Maria (do SESC) e Dênia Diniz (que organizou o inventário).

Foram menos de cinco meses. Em dias finais de agosto daquele 2007, ligou-me o Cysneiros para contar que “está tudo pronto”, mas que estava proibida a minha visita ao local antes da inauguração. Fui ao Rio, convidei o imortal (da Academia Brasileira de Letras) Antônio Olinto – o primeiro crítico de Veiga, em 1959 – para vir a Goiânia e presidir a solenidade. Ele veio, com sua inseparável secretária Beth Almeida. Dênia veio de Belo Horizonte. Ajudaram-nos a acolhê-los o secretário municipal de Cultura, meu confrade e amigo, irmão e padrinho Kleber Adorno, e o prefeito Iris Rezende Machado regozijou-se por poder receber Olinto, seu velho amigo.

Na noite de 5 de setembro, na Biblioteca do SESC na Rua 19, deparei-me com a surpresa: a montagem da sala que se chamou Espaço José J. Veiga ficou impecável! E para meu regozijo, uma bela placa contava, sumariamente, a razão de tudo aquilo.


Dênia (à esquerda), a cerimonialista, eu e Giuglio, no Centenário de José J. Veiga.
Hoje, a Biblioteca está em novo espaço, na Rua 15, ao lado do Teatro SESC, ainda mais bonita e, com ela, o Espaço José J. Veiga. E já beiramos o décimo aniversário. Há dois anos, e justamente ali, recebemos Carla e Gabriel Martins, sobrinhos herdeiros do escritor, para os festejos do Centenário de José.

Sou grato ao SESC e seus dirigentes, meus amigos diletos, pois foi ali que encontrei guarida, com zelo e competência – e isso justifica a presente memória. E estou certo de que Veiga e Antônio Olinto também, de onde estiverem, abrem-se em sorrisos de gratidão.


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Fotos do meu acervo.




Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.


quinta-feira, agosto 17, 2017

Emoções da Caminhada

Emoções da Caminhada, ainda...



Sempre me intriguei com as medidas. Elas, ainda que traduzidas num mesmo número, mostram-se variáveis, nunca são iguais.

Explico (ou tento): tomo por base a largura da minha rua, de muro a muro, o de cá e o do lado oposto. Sei que são 12 metros, aproximadamente, e noto que se trata de uma estreita faixa entre as construções. Certa vez aprendi que rua não é só a faixa onde transitam os veículos, mas incluem-se as calçadas, isto é, a rua é integrada também pelos imóveis edificados, daí não ser correto dizer que certa casa ou edifício está “à rua X”, mas sim “na rua tal”.

Bem, eu falava de medidas e não de conceitos. E disse dos 12 metros horizontais que são a largura da minha rua. Ocorre-me que a mesma medida, na linha vertical, parece ser bem maior, tanto para quem olha do alto ou ao que avalia de baixo para cima.

O mesmo se dá com a medida do tempo. “Daqui a 15 dias” (ou dez anos) é algo distante, remoto, em dadas circunstâncias parece algo inalcançável – mas o mesmo tempo, quando referente ao passado, torna-se algo bem menor. O que está por vir pode nos causar ansiedade, mas o passado mostra-se pequenino.

Tudo isso para chegar, uma vez mais, à tradicional caminhada, como que romaria, de Goiânia a Aruanã, nos meses de julho de todos os anos, há 26 anos. Desta vez, sem que eu jamais me imaginasse naquela troupe, vi-me envolvido! O professor Antônio Celso, coordenador técnico da caminhada, envolveu-me emocionalmente ao contar coisas de sua experiência com os “andarilhos da natureza”.

O foco da nossa conversa era a casa de Dona Maria do Uru, mãe do meu saudoso amigo João Batista Rodrigues de Morais. Viajei ao passado, há uns 40 anos idos, e achei muito pouco aquele tempo. Aceitei seu convite para estar com os atletas e equipe no momento do almoço da quarta-feira, o segundo dia da marcha, justo na fazenda Uru, à margem do rio do mesmo nome, à beira da GO-070, a Rodovia Jaime Câmara.

Aquele período de poucos dias entre o convite e o feito pareceu-me uma eternidade. Alcancei o grupo a poucos quilômetros da ponte do Uru e já, já paramos o carro diante da casa. Emocionei-me ao encontrar pessoas queridas que não via há mais de três décadas! Eram Mariquinha, Izabel, Sônia, Marcelo... muitas lembranças, referências a pessoas queridas e ainda mais emoção quando os andarilhos chegaram, ao inaugurarem a placa (a matriarca falecera em abril, isto é, há cerca de três meses) e ao trocarem as prosas no intervalo de um ano.

Valeu viver aquilo! Surpresas, alegrias, lembranças... E a tradição iniciada pelo Cristo, isso de se reunir para a refeição, o prazer dos sabores e da boa conversa. Gostei muito de conhecer Paulo Lacerda, o coordenador geral da histórica empreitada de todos os anos, “o homem d’O Popular”, liderando uma expressiva e competente equipe da qual depende todo o êxito da logística indispensável.

A mim, não bastava apenas emocionar-me no reencontro de bons amigos de um ontem distante. O pensamento é, nessas ocasiões, ágil veículo de outra viagem, de partida e chegada instantâneas, essa que nos conduz à mocidade e causa reencontros que só a mente define. Lembrei-me do patriarca criador da (antes) Organização, hoje Grupo Jaime Câmara – um homem de visão empresarial, expert em comunicação, mas diletante na arte apreciável dos que nasceram para servir.

Olhei em silêncio meu interlocutor Paulo Lacerda... Compreendi a harmonia entre ele e o mestre Antônio Celso, a liderança saudável que proporciona segurança a cada um daqueles 29 atletas e revi “seu Jaime” – capaz de firmar-se líder naquele silêncio dos sábios.

Três dias depois, no sábado, aguardei com uma feliz ansiedade a matéria nos telejornais, atestando o que todos esperávamos – a caminhada chegara ao seu destino com todos os itens planejados já realizados. Restou somente a renovação do sonho para a próxima.

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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

domingo, agosto 13, 2017

Lírios e Orquídeas

Leodegária de Jesus, na arte de Amaury Menezes


Lírios e orquídeas

Estive em Caldas Novas para contar e convidar para festejar – afinal, era 8 de agosto, o aniversário de Leodegária de Jesus, a poetisa pioneira de Goiás. Por 48 anos (1906-54) somente ela, dentre as mulheres versejadoras, publicara livros de poesia em Goiás. Nasceu na vila de Caldas Novas da Rainha (era assim que ela se referia ao vilarejo) em 1889, viveu em Jataí, Rio Verde e na Cidade de Goiás. Depois em Catalão e de lá para Minas – Araguari, Uberlândia e Belo Horizonte. Houve ainda breve passagem por Rio Claro, SP.
Com a decidida participação da bibliotecária Helena Carvalho, da presidente da Academia de Letras e Artes de Caldas Novas, a musicista Stella Fleury, da secretária de Cultura Profa. Ms Gabriela Azeredo Santos e da radialista e acadêmica de Letras Naftali Gomes, pude curtir um dia em que proferi três palestras e concedi três entrevistas - ao radialista Tomatinho, ao âncora da TV Caldas Juscelino Silva e ao casal amigo Adriana Martins e Tyrone Saunders.
À mesa-redonda na Biblioteca Professor Josino Bretas compareceu o vereador Léo de Oliveira, contanto que tem pronto um projeto para instituir, a partir da Câmara Municipal, a data de 8 de Agosto como o Dia Municipal do Poeta e outras providências – com ênfase para a Comenda Leodegária de Jesus, destinada a personalidades de realce no meio cultural de Caldas Novas.
Listam-se em Caldas Novas alguns nomes expressivos da nossa história, como o do fundador Luiz Gonzaga de Menezes. Em algum momento, foi ensinado nas escolas que o tabelião Orlando Rodrigues da Cunha fora o primeiro professor da cidade – mas há aí um equívoco, pois José Antônio de Jesus, sim, pode ter sido o primeiro mestre em nossa terra.
Coroa de Lírios foi publicado em 1906
Como já narrei noutra crônica, a adolescente Leodegária produziu poemas suficientes para enfeixá-los em livro. Coroa de Lírios, o livro de estreia, foi lançado em maio de 1906, três meses antes que a autora completasse 17 anos. O libelo foi enviado a críticos literários de jornais pelo Brasil afora e assim obteve a mocinha expressiva fortuna crítica (gosto de destacar o fato de que Osório Duque Estrada, o autor do poema do nosso Hino Nacional, foi um dos que se manifestou sobre a obra).
As análises dos poetas-críticos levavam em conta a pouca idade (e, obviamente, pequena experiência) da menina poetisa. E a única restrição se fazia ao fato de que, em tempos de despertar-se o modernismo, ela escrevia na linhagem do romantismo e do parnasianismo – o que é facilmente explicável: as naturais condições da comunicação da época e a escassez das obras disponíveis mantinham as dificuldades de acesso às novas práticas.

Ganhei da profa. Darcy França Denófrio o Orquídeas, que foi publicado em 1928.

Seguiram-se anos de dificuldades para a família. A poetisa formou-se professora e aprendeu a costurar, ofícios de que se valeu para manter a família ante a invalidez do pai (uma cegueira incurável). Por isso, somente em 1928 ela voltou a publicar – foi o momento de Orquídeas.


Somente em 1954 outra poetisa goiana – Regina Lacerda, vila-boense – surgiu em livro (o próximo livro foi de Yeda Schmaltz, em 1964 e, em 1965, surgiu Cora Coralina, amiga de Leodegária desde a primeira década do Século XX).
Estive, logo pela manhã, na Escola Padrão Século XXI, e à noite, na UEG. Pouco após meu retorno ao lar, no dia seguinte, recebi de Naftali Gomes a notícia de que os vereadores Léo Oliveira e Saulo Inácio apresentaram o Projeto de Lei 130 que, uma vez aprovado pelo plenário e sancionado pelo prefeito Evandro Magal, institui-se a data de 8 de agosto como Dia Municipal do Poeta em Caldas Novas, e a Comenda Leodegária de Jesus, destinada às pessoas que se destacarem na área cultural do município.
Em breve, espero festejar esse feito com meus conterrâneos.


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Luiz de Aquino é escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

quinta-feira, agosto 10, 2017

Anotações hodiernas



Anotações hodiernas



As semanas, parece-me, estão com apenas cinco dias. Tanto a fazer e tão pouco realizado, a cada dia alguns itens programados são adiados – ou apagados – e a perspectiva continua a mesma, sempre a nos cobrar mais agilidade, racionalidade, objetividade...

Convenhamos, porém, que os percalços são sempre o que nos dão alegrias. Contornar obstáculos, superar dificuldades e sentir que mesmo diante das pedras do caminho alcançamos nossos propósitos. Isso me lembra sempre o ensinamento antigo que compara a vida aos rios, que têm o mar por objetivo; no caminho há retenções, desvios e restauros, mas sequer a grandeza das montanhas inibe os cursos d’água. Em seu caminhar ocorrem a infiltração e a evaporação, mas o afluxo de outros caudais os fortalecem e o destino é sempre alcançado.

Brinco com essa ideia para contar aos leitores das minhas lutas. Talvez não tenham qualquer importância para muitos (ou todos), mas sei que elas são o tempero desta minha curta existência (sim, que sete décadas só parecem muito quando estamos no comecinho da caminhada; o tempo vivido, quando se olha para trás, mostra-se curto e tudo parece ter acontecido ontem).

Chegamos à segunda semana de agosto neste 2017 de tantas surpresas e decepções nacionais, contudo renovamos as esperanças a cada dia e mostramos nossa resistência – eles, os malvados, que se cuidem, já que o tempo é determinante e as mudanças virão – não necessariamente ao modo deles.

Falo de mim e conto que festejarei o dia 8, terça-feira, com a intenção de uma festa de aniversário – os 128 anos (sim: cento e vinte e oito anos) do nascimento da mais ilustre das mulheres nascidas em Caldas Novas e, sem dúvida alguma, em Goiás – a poetisa Leodegária de Jesus. Essa festa envolve minhas queridas amigas Gabriela Azeredo Santos e Stella Fleury, respectivamente secretária da Cultura (de Caldas Novas) e presidente da Academia de Letras e Artes de Caldas Novas, bem como os membros efetivos da nossa ALACAN.

Claro, claro... darei notícias dessa festa.

Outro evento de boa monta será em Goiânia, dia 11 (sexta-feira), na Pizzaria Casablanca (Rua 3, em frente à Vila Cora Coralina, entre a avenida Tocantins e a Rua 31). Será o nosso segundo Sarau, com vários poetas já inscritos, sob a coordenação da poetisa Zanilda Freitas, auxiliada por mim e pelas Versejantes, as poetas Ana Cárita, Sônia Elizabeth, Rosy Cardoso e Sônia Prado.

A partir das 19 horas, estaremos lá para a cantoria e as declamações, com Itamar Correia, Maria Amélia Trindade, Lady Foppa, Sinésio Dioliveira, Carlos Edu (será que virá?), Antônio da Costa Neto e outros mais!

De resto, registro meu abraço de carinho ao secretário da Cultura de Goiânia, o poeta e acadêmico Kleber Adorno – um acerto do prefeito Iris Rezende na montagem de seu secretariado. Intelectuais e artistas goianienses (de nascimento ou de escolha) festejam a volta do Goiânia Canto de Ouro, do Festicine, do Chorinho às sextas-feiras no Grande Hotel e, em breve, a coleção Goiânia em Prosa e Verso.

Como se diz, “é vida que segue”!


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.


domingo, julho 30, 2017

Conversa de boteco

Conversa de boteco como não há mais



Esta geração que já atingiu a sétima década – ou seja, já se marca pelo prefixo “sex”- tem lembranças das graves mudanças sociais da adolescência, notadamente quanto ao progresso dos métodos contraceptivos, permitindo a (antes) tão sonhada liberdade sexual. Sim, aqueles anos de 1960-70 foram de transformações e preparação para tempos melhores, no que toca ao comportamento humano entre os gêneros. Pena que...

Sim! Nada acontece sem gerar resultados no azul e no vermelho. Vivemos (já sou septuagenário) aquelas transformações, lutamos por liberdades, valemo-nos de slogans e até mesmo de ideologias políticas que nos permitissem combater o conservadorismo que restringia o alcance da liberdade – individual, sexual, ideológica e capaz de praticar o respeito às diferenças.

Infelizmente, em todos esses itens restam sempre os ranços da discriminação (o que chamam, às vezes erroneamente, de preconceito). Sei de uma senhora, em idade de poucos anos a menos que a minha, que não gosta de homossexuais nem de pretos. A uma amiga que a rotulou, respondeu: “Não é preconceito, não – é conceito”.

Putz!, diria o saudoso Henfil nas páginas do Pasquim, o grande jornal nanico que se tornou porta-voz dos nossos anseios. E viva os eufemismos, hem?

Enfim, os gays puderam assumir sua sexualidade, os pretos ergueram suas cabeças, os velhos – que não eram respeitados – ganharam até um estatuto. E lá pelos últimos anos da década de 80 e boa parte da seguinte, a última do século passado, muito se falou e se conceituou sobre a ética. Sei de mim, que já passara de 40 anos, que aqueles valores éticos – não os códigos profissionais, mas os que regiam as relações generalizadas – eram praticados em casa, ensinados na escola e disseminados nas tropas de escoteiros e bandeirantes (na época, não havia escoteiras, as garotas adolescentes, chamadas de meninas-moças, eram mantidas afastadas dos meninos adolescentes, apelidados de rapazinhos).

Sei bem que aqueles valores eram por nós mantidos como esteios ou vigas mestras de nossas vidas adultas. Em 1970, foi-me fácil processar uma das unidades da disciplina Educação Moral e Cívica, a da Axiologia, com fundamentos na educação em família, no aprendizado das escolas e nos preceitos escoteiros.

Em suma, a minha geração deveria ter por padrão um comportamento menos desleixado do que esse que norteia nossa política. A nação está decepcionada, machucada, magoada com os representantes que elegeu, pois a prática da corrupção sem qualquer escrúpulo, às claras, à luz do dia ou dos holofotes, os argumentos nojentos que os políticos e seus asseclas tecnocratas vociferam nos noticiários de rádio e tevê seriam motivo para represálias sociais e legais em qualquer outra parte do mundo, mas tornamo-nos um povo contaminado pela liberdade desde aqueles anos chamados de “redemocratização”.

Desenvolvemos como item do respeito ao próximo a supervalorização do individual sem o competente limite ao direito do outro. Ou seja, toleramos alguém ser errado e até criminoso sob o argumento da “escolha individual”, mas omitimo-nos ante os males que essa liberdade individual exacerbada cause a terceiros.

Fui claro ou tenho de dar nomes a Temer, Meireles e à caterva que os bajula?


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

sábado, julho 22, 2017

O amor ante a morte




O amor ante a morte (*)


A semana foi de amores e mortes. Considere-se a semana desde a noitinha da sexta-feira, 13 de julho, e termino-a algumas horas antes de se fecharem as 168 horas dos sete dias, até porque não preciso de todas essas horas (no intervalo, muitas foram as horas gastas com ocupações menores ou não-afins). Nas primeiras horas, o belo de cores e arte, de história e alegorias, de música e de movimento ora calculado, ora espontâneo; em meio a tudo, a vaia.

E vieram os jogos do PAN do Rio, uma festa de Brasil e Américas. Mas vieram as cores terríveis do choque e do fogo: a expectativa da chegada feliz deu lugar ao espanto e vez ao susto, à dor e ao desespero: não havia como morrer. A tragédia vaiava a vida.

O senador Antônio Carlos Magalhães, satélite de todos os poderes nos últimos 50 anos da vida política brasileira, não estava naquele avião; mas também deixara a vida a poucas horas do fim da semana. Alguém me fala em “fecho de um ciclo”; discordo, porque esse ciclo já começava a se fechar desde quando ele teve de renunciar para não ser cassado. De novo evoco o belo e a poesia... Sem texto, não há poesia; e a beleza, não existiria se o homem não a concebesse, não tentasse sempre recriá-la.

A morte do homem público diz respeito à história; as mortes de centenas de passageiros do avião da TAM causam comoção nacional, ainda mais quando vemos as chamas do querosene espalhado a expandir-se por papéis e outros inflamáveis. A dor é única, é brasileira, ecoa em cada família e em cada grupo de trabalho ou de passeio, de esporte e de ócio. É uma dor que cala fundo no peito da gente, mas é social.

Dor individual fica por conta dos parentes e amigos dos que se foram. Como a dor que se espargiu entre filhos e netos de Dona Valeriana, a octogenária mãe dos meus amigos Aidenor e Hildenor Aires. A mulher simples que, nos anos 50 do século passado, deixou o sertão oeste da Bahia e chegou à emergente capital nova de Goiás, onde trabalhou como pôde para educar seis filhos.

Daquela prole emergiram filhos dignos. E bem definiu o poeta Aidenor, à beira do sepulcro, ao evocar a vida de lutas árduas de que resultaram os filhos vitoriosos: “Ela foi como as mães e avós de muitos de nós aqui”, disse o poeta, “mulheres que não precisaram de cesta básica nem das esmolas dos governos para criar seus filhos com dignidade e honra”.


Dona Valeriana é daquela geração da década de 20, frutos de um severo após-guerra; a mesma leva que se viu buxa-de-canhão da II Guerra Mundial, os homens conduzidos aos “fronts”, as mulheres obrigadas aos sacrifícios inerentes aos estúpidos conflitos bélicos.

Bélico... de “bello”, guerra em latim; o mesmo latim que nos deu belo, de “belle” (adjetivo “lindamente”). Não há morte bela, ela sempre nos traz o trágico, a dor e um inarredável sentimento de solidão. E saudar a morte é ofício dos vivos. Dizem que a morte só dói entre os que ficam. Mas os que ficam, quando têm os conceitos que Aidenor conhece bem, entendem que a vida tem seu tempo, e o tempo de Dona Valeriana fechou-se na noite de quinta-feira, 19 de julho, 2007. Teve tempo de ver a cidade que escolheu para viver e criar os filhos render-se aos méritos de Aidenor.

E ela, agora, se apresenta ao criador com a simplicidade de Irene, preta e boa, de Bandeira. Pela vida que viveu, certamente ouvirá de Deus: “Você não precisa pedir licença”.


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(*) Esta crônica foi publicada em 22/07/2007, neste meu espaço no DM. Escolhi repeti-la para comparar os tempos em uma década e, a um só tempo, homenagear meus amigos (filhos de Dona Valeriana). 




Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.


sábado, julho 15, 2017

Caminhada Ecológica: Dona Maria do Uru





Da. Maria de Lourdes Rodrigues, ou... (Foto: álbum de família)


Dona Maria do Uru



Enquanto escrevo, um grupo de apaixonados pela natureza cuida dos últimos detalhes para a 26ª Caminhada Ecológica – a marca de 310 km de Goiânia a Aruanã, capitaneada pelo professor Antônio Celso Ferreira Fonseca. São 29 caminheiros, alguns assíduos desde a primeira ocorrência de um evento que já se tornou constante em todos os meses de julho, referência importante do que nós, goianos, entendemos ser a “temporada do Araguaia”.

O grande rio, divisa natural entre Goiás e Mato Grosso e Goiás e Pará – antes da divisão territorial de 1989 – é tão importante para nós quanto a pamonha, o pequi e o cerrado. Essa Caminhada Ecológica é um feito sociocultural dos que marcam um povo e um tempo. E é sempre bom e agradável conversar com pessoas que se dedicam a causas como essa, que envolvem muitos fatores – como a prática esportiva, o gosto turístico, a defesa de um ideal como a preservação ambiental e, por decorrência, o sabor indescritível das descobertas de feitos e atos tão significativos como o que ouvi do mestre Antônio Celso.

Conta-me o professor que, numa das realizações da Caminhada, ele foi atraído pela imagem de uma senhora à janela de uma casa, sede da Fazenda Uru, à beira do rio do mesmo nome – divisa natural dos municípios de Itaberaí e Goiás (a antiga capital). Parou e foi à casa, bem à margem da rodovia, e dirigiu-se àquela senhora, que o acolheu com um belo sorriso de boas-vindas.

Era Dona Maria. Dona Maria do Uru, como ficou conhecida. Ele se apresentou, contou da Caminhada, foi convidado para adentrar e experimentou uma bela conversa... Enfim, aquela visita não programada era a semente de uma amizade e de novas marcas para os caminheiros, os “andarilhos da natureza” – como na canção de Matão e Monteiro. Dona Maria serviu-lhe pipoca e café e acolheu o grupo que faz, todos os anos, aquele percurso. A travessia do Uru corresponde ao período de almoço dos atletas na quarta-feira, o segundo dia de andança.

A partir de então, o ponto de almoço passou a ser a Fazenda de Dona Maria. Ela os recebia com ansiosa alegria e os brindava sempre com uma farta mesa de quitandas e café, além da pipoca – que se tornou referência e que ela, aos punhados, lançava sobre aqueles atletas, como que os abençoando em nome de Deus.

Foram dez anos ou mais. Nesta segunda-feira, e com um novo ponto de partida – a cidade de Trindade –, a Caminhada tomará sua trilha e chegará ao rio Uru na manhã de quarta-feira, onde realizará o almoço – mas agora sem a alegria marcante de Dona Maria do Uru. Ela se despediu da vida material em abril passado. Agora, seus beija-flores – como ela se referia aos caminhantes do Araguaia – estarão lá, mas recebidos pelos filhos da matriarca Dona Maria do Uru.

Antônio Celso, atento a todos os detalhes (como convém a um líder de tão legítimo evento), recorda o detalhe de um beija-flor do último abril, no dia em que, na mesma casa da beira do rio e da estrada, velava-se o corpo inerte de Dona Maria. A pequenina e esperta ave entrou pela janela, a mesma onde o professor vira Dona Maria pela primeira vez, esvoaçou por rápidos segundos sobre o corpo e desapareceu. E ficou a sensação de que ela combinara com o pássaro aquela visita, pois, ao lado da janela, dois dos andarilhos, com as camisetas do evento, sentavam-se como vigilantes.

Dona Maria não é mais presença física no Uru, mas sua alma de bondade ali aguardará sempre seus “beija-flores caminhantes”.

Numa canção, esses atletas eram ditos "caminheiros da natureza", mas Dona Maria os chamava de "os beija-flores".
(Foto: Internet)



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Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras.

domingo, julho 09, 2017

Sob a Espada de Dâmocles

Michel Temer nos traços de Jorge Braga (O Popular).






Sob a Espada de Dâmocles



Vão-se mais de dez dias da escolha, pelo presidente Michel Temer, da subprocuradora Geral da República Raquel Elias Ferreira Dodge para suceder o procurador geral Rodrigo Janot, o que colocou a Espada de Dâmocles sobre a cabeça do ocupante da principal cadeira desta malfazeja república de Floriano.

Nada de errado ao escolher o segundo nome mais votado, senão pelo compromisso espontâneo que assumiu de respeitar a escolha maior dos procuradores. Mas essa opção, perfeitamente legal e moral, não oculta a rejeição ao preferido de Janot, o subprocurador geral Nicolao Dino (que é irmão do governador do Maranhão, Flávio Dino, que se opõe a Temer). Ou seja, a mudança da promessa não compromete a escolha, apenas equivale a uma confissão de receios vários (ao que tudo indica).


Rodrigo Janot e Raquel Dodge (foto folhapolitica-org)

Sobre a conduta de Temer, duas vezes vice de Dilma Rousseff na Presidência da República, muito se ignorava, muito se especulava e as dúvidas não o recomendavam bem. É sempre inevitável compará-lo com Itamar Franco que, quando presidente, tinha por braço direito o ministro Henrique Hargreaves (da Casa Civil no governo de Itamar). O ministro, exposto em suspeita, afastou-se do cargo e declarou fazê-lo para facilitar as investigações, após as quais, sendo inocentado, retomou o posto.

Nos últimos dois anos e meio, essa história foi por demais lembrada, tantos foram os nomes de auxiliares do governo postos em evidência por suspeitas – e provas. E veio então a público a gravação de Joesley Batista, deixando à luz um pouco dos segredos de Michel Temer – não um ministro (como Geddel Vieira, Eliseu Padilha e Moreira Franco), mas o próprio presidente da República.

Ora, ora... Sempre me mantive respeitoso ao cargo e seu ocupante, ainda que discordante da linha política, dos feitos administrativos e do que nos chega como “o caráter” do homem público. Mas como respeitar o cargo quando seu próprio titular legal não o respeita? É o que nos passa o “rei da mesóclise”, o do discurso refinado dos primeiros meses (agora, seus discursos andam recheados de rancor, mágoas e ódios contra os que tomam conhecimento de suas malfadadas medidas com o dinheiro sujo das propinas e das barganhas, em prejuízo do Erário).

Em meio ao turbilhão dos fatos e das provas, ensaia Temer discursos alinhados com seu advogado Mariz, com seu assecla Marum (parecem nomes de dupla sertaneja) e outros áulicos. Viaja à Alemanha sob a borrasca das denúncias e novas ameaças, como a possível confissão, em pacto de colaboração premiada, de ninguém menos que o ex-deputado (e correligionário) Eduardo Cunha, reforçada pela mesma intenção do doleiro Lúcio Funaro, enquanto o ex-ministro Geddel Vieira se esperneia para tentar escapar da prisão.

No meio de tudo, há que se recordar o malfadado jantar com o ministro Gilmar Mendes, do STF, durante o qual – pelo que foi divulgado – escolheu-se o nome de Raquel Dodge para suceder a Rodrigo Janot. A escolha, está claro, é legítima, não fosse um leve indício – a preparadíssima subprocuradora geral costuma manifestar-se contrária a alguns atos ou medidas do procurador geral. Contudo, há mais a se considerar.

Raquel Dodge, goiana de Morrinhos, traz um belo currículo de formação escolar e práticas profissionais. O fato de discordar do chefe não faz dela alguém suspeita, alinhada com os erros que ultimamente marcam fortemente os inquilinos dos palácios brasilienses. O que se viu nos noticiários parecia apresentar ao Brasil uma pessoa capaz de alinhar-se com propósitos escusos, já que “caiu nas graças” de figuras antipatizadas pela opinião pública.

Mas que não se enganem! Ela detém uma biografia consolidada, cheia de feitos que bem a recomendam. Caso sobreviva aos feitos da Câmara dos Deputados e, talvez, do próprio Supremo Tribunal Federal, Michel Temer haverá de se decepcionar com uma profissional de sólida formação jurídica e moral. E o Brasil precisa muito de pessoas assim.

Essa é, parece-me, a Espada de Dâmocles sobre a cabeça de Temer.


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Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

sábado, julho 01, 2017

Em tempo de total descrença

Quem tem medo do Lobo Mau?


Muito se fala sobre o foro privilegiado para detentores de mandato eletivo. Parlamentares são os que detém para si a gama maior de privilégios, pois podem lucubrar verdades factoides e ferir a honra e a dignidade dos cidadãos comuns sem que, por isso, sejam contestados judicialmente – como chamar os desafetos de bandidos, por exemplo. 

Os mandatários de cargos do Executivos nos três níveis são alvos da nossa constante irritação por tudo o que nos falta ou nos é tirado em nome da escassez de recursos ou da “necessidade” do aumento de impostos – bandeira essa com que o todo-poderoso ministro da Fazenda nos ameaça a cada palestra.

A Internet – essa nova “casa” (da mãe-joana) instituída em âmbito mundial – deu voz aos que, até vinte anos atrás, não sabiam onde dizer nada, onde reclamar de nada. E, com isso, nota-se que o repúdio à classe política, hoje, está se tornando uma nova unanimidade.

Dois dos juízes do maior patamar da Justiça – Teori Zavaski e Edson Facchin – foram além da letra metálica da Lei e feriram seriamente o Legislativo. O primeiro afastou do cargo e mandou prender um senador; o segundo afastou do cargo e limitou drasticamente os movimentos de outro senador – mas somente o primeiro teve, efetivamente, seu mandato cassado e suas vantagens ceifadas drasticamente. Já o segundo mereceu o retoque caprichoso de um terceiro alto magistrado, Marco Aurélio Mello. Ele “corrigiu” o “abuso” (não usou essa palavra nem se referiu diretamente a Facchin, mas não foi necessário) do colega e, ao “aplicar a lei” em respeito “aos votos do povo”, embasou seu discurso em exaltação aos méritos (?) políticos e pessoais do neto de Tancredo.

Se Facchin pecou em sua decisão, o bom senso sugere que a questão poderia ser corrigida no colegiado – ou seja, na apreciação pelo plenário de 11 ministros, e não na contestação pura e simples de um de seus iguais. Ou será que, também lá, uns são mais iguais que seus iguais?

Há incontáveis acusações contra a cúpula do PT, partido que se rege não por essa cúpula, mas pelas orientações autocráticas de um só líder. O juiz Sérgio Moro condenou o tesoureiro Vaccari, mas o regional o absolveu, limpando-lhe totalmente a ficha. Parece que o prêmio não foi bem absorvido na mídia ou nos comentários das redes sociais, mas é um indício de perdão geral para os petistas – e, pelas novas notícias, também aos do PMDB, do PSDB etc.

Fala-se que Lula, hoje, torce para que Temer continue no cargo – ele seria um anti-herói, um presidente que tenta emplacar medidas antipáticas, antipopulares, e assim pavimentar o caminho de seus adversários. Acredito, também.

A popularidade de Michel Temer, na faixa de 7%, é uma das mais baixas de que se tem notícia em todo o mundo. Ele não suportaria sequer o boato de uma consulta popular, agora. O Brasil carece de líderes. As duas casas do Congresso, as 27 assembleias estaduais e as mais de cinco mil câmaras municipais do país colecionam fatos e atos criminosos contra si – e há o consenso de que nenhuma delas escapa a uma auditoria.

O mais triste é saber que a cara de pau, hoje, não tem limites. Antes, há algumas décadas, havia um ligeiro pudor até mesmo entre esses corruptos que deixaram o seu legado para os filhos e netos (as oligarquias são as mesmas sempre, transmitem-se de pai para filho e, não raro, agregam novos segmentos familiares porque os casamentos existem para isso também). O triste é constatar que antes era tudo igual, mas o populacho não tinha acesso às informações.

E ante tudo isso, ainda há quem venha, no turbilhão de tantas más notícias, pregar a honestidade dos ditadores.

Isso é pior do que acreditar no Saci Pererê.


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Luiz de Aquino é escritor de prosa e verso, membro da Academia Goiana de Letras.